Depressão Pós-Parto: quando o nascimento também exige um novo nascimento em nós

A chegada de um bebê costuma ser cercada por expectativas, amor e uma intensa idealização da maternidade. Mas, para muitas mulheres, o período pós-parto vem acompanhado de sentimentos ambíguos, esgotamento e uma tristeza profunda que parece não combinar com o que “deveria” ser um momento feliz. É nesse espaço entre o que se esperava sentir e o que de fato se sente que pode surgir a depressão pós-parto.

Na perspectiva psicanalítica, o pós-parto é um tempo de grandes atravessamentos psíquicos. O corpo muda, a rotina se transforma e, sobretudo, a identidade também precisa se reorganizar. A mulher, antes filha, parceira, profissional, agora se vê também mãe, e esse novo papel desperta conteúdos inconscientes relacionados à própria história de cuidado, às vivências de falta e às identificações com as figuras maternas.

Muitas vezes, o sofrimento não é apenas pela exaustão física ou pelas demandas do bebê, mas por algo mais profundo: um conflito interno entre o amor e a sensação de perda de si mesma, entre o desejo de ser uma “boa mãe” e o medo de não estar à altura desse ideal. A psicanálise entende que esse processo é singular em cada mulher e que o caminho não é se culpar, mas poder falar sobre o que se sente, sem medo de julgamento.

A psicoterapia psicanalítica oferece um espaço de escuta e elaboração para que essas vivências possam ganhar palavras, sentido e, aos poucos, lugar dentro de quem as vive. Quando a mulher pode dizer da sua dor, do cansaço, da ambivalência, e é acolhida nisso, abre-se a possibilidade de reconstruir uma relação mais viva consigo mesma e com o bebê.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado. É reconhecer que o nascimento de um filho também convoca o renascimento psíquico da mãe, um processo delicado que merece tempo, escuta e acolhimento.

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